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A expressividade dos sons curtos e longos – Atividades 2

O tema “ritmo” ou “durações” apoia-se primordialmente na duração relativa dos sons. Da combinação de sons curtos e longos, acrescidos de silêncios e acentos, derivam-se todos os padrões rítmicos. Estes podem ser regulares, ou seja, medidos ou métricos, associados ao pulso constante; ou podem ser irregulares, aleatórios, não métricos. Ambos, padrões de sons regulares e irregulares, ocorrem tanto na música quanto na natureza e no cotidiano.

Esse aspecto do universo musical é talvez o que se preste de maneira mais imediata à expressão pelo movimento – um dos principais fundamentos da educação musical – e à representação gráfica, ou analógica. Como o nome indica, esta se baseia na analogia entre propriedades do campo auditivo e do visual. Sons remetem-nos a formas visuais e vice-versa.
No processo de musicalização a escrita analógica tende a se desenvolver naturalmente. Pontos, linhas, contornos, emaranhados e arabescos surgem como continuidade da movimentação pelo espaço. Enquanto a escrita tradicional no pentagrama requer longo aprendizado, a notação analógica é quase inequívoca: sons curtos são representados por pontos ou traços horizontais pequenos; sons longos, por traços mais compridos. Assim, a notação rítmica analógica pode ser precisa, aproximada ou indefinida conforme o contexto rítmico seja regular ou irregular.
Inúmeras estratégias são empregadas para se trabalhar a relação entre sons curtos e longos na educação musical. Atividades de reação a estímulos sensoriais táteis (toques no corpo), visuais (seguir a regência), sonoros (reagir aos sons ouvidos), com bola, de exploração da grafia, leitura, trabalho com material concreto proporcional e outros são bastante conhecidos.
Mas, muitas vezes, essas atividades se limitam ou se encerram no trabalho de reconhecimento e de reprodução sonora, não raro de maneira mecânica, pouco musical. Na verdade, permanecem focados no âmbito dos materiais sonoros, apenas, sem que haja uma exploração expressiva ou uma abordagem estrutural desses materiais.
Afinal, para que as crianças irão aprender a distinguir, reproduzir e grafar sons curtos e longos senão para transformá-los em música? A ideia é que, partindo-se dos sons, sejam delineados gestos expressivos e estruturas musicais.
Padrões de sons curtos terão um caráter expressivo completamente diferente se realizados em andamento rápido ou lento; forte ou piano; grave ou agudo; pela voz ou por instrumentos (essa experimentação por si só já é extremamente musical!). Sons longos podem conter um crescendo, movimentar-se entre o grave e o agudo, criar sensação de repouso ou de expectativa.
Curtos e longos podem se combinar de diversas maneiras, em sobreposições, justaposições, contrastes súbitos ou mudanças gradativas. Podem dialogar, alternando-se de maneira equilibrada, com intervalos de silêncio ou não; uns podem se destacar sobre os outros ao fundo. Enfim, é um vasto menu para experimentação, improvisação e composição.
A audiopartitura abaixo tem dois estratos: um com sons curtos, repetidos, mais agudos, sem alterações do começo ao fim; outro com um som contínuo que se move à vontade dentro do registro médio-grave.
tartarugas

Nessa atividade aparentemente simples surgem oportunidades para escolhas seriamente artísticas e estéticas. Como não há nenhuma indicação, a audiopartitura pode ser realizada em andamento rápido ou lento; em intensidade forte ou piano; com caráter delicado ou nervoso; como chuva sobre um horizonte montanhoso; como marteladas e serra elétrica numa carpintaria; como o tic-tac do relógio e o ronco do seu avô.

Depois de experimentar várias possibilidades de realização da audiopartitura, ouça uma gravação da peça Tartarugas, do Carnaval dos animais, de Camile Saint-Saens.http://dl.dropbox.com/u/15280243/St%20Saens%20Tartarugas.wma
Observe como as escolhas feitas pelo compositor determinaram o caráter doce e solene da peça. O piano surge realizando acordes no registro médio, em dinâmica piano. Geralmente, em uma peça para piano e orquestra, é o primeiro que faz o solo, acompanhado pela orquestra. Em Tartarugas, a inversão de papéis é saborosa. Sobre o acompanhamento do piano entram as cordas, no registro médio-grave, em pianíssimo, realizando uma melodia tranquila, legato, em frases longas e dilatadas no tempo – tão dilatadas, que quase não se reconhece a melodia do Can-can, tema de Offenbach. Aqui esse tema é completamente transformado: a melodia das dançarinas, rápida e articulada, desaparece e dá lugar às enormes frase em legato, solenes e misteriosas, serenas e velhas como as tartarugas – as grandes, no caso. Não lhe parecem velhas as tartarugas?
Uma experiência sublime é vivenciar a percepção dos dois estratos (piano e cordas) por meio do movimento, realizando-se uma partitura viva. Formam-se dois grupos: um no círculo externo, movendo-se e expressando com gestos a linha dos acordes do piano, leves mas com personalidade; o outro grupo, ao centro, realiza as longas e elegantes frases das cordas, sustentadas como movimentos de Tai Chi Chuan. Depois, inverte-se: sons curtos ao centro, legatos na roda. Ora os acordes envolvendo as linhas das cordas, ora estas contendo os sons do piano. Uma escultura dançante!
rodas

Através do movimento, nosso corpo faz a mediação entre o domínio visual e o auditivo. Volte à audiopartitura inicial e ouça a peça mais uma vez. Como lhe parecem ambas, música e partitura, após essas experiências?

Quanto mais oportunidades de escuta e experimentação, mais as crianças poderão colher, dentre um amplo repertório de ideias, inspiração para as suas próprias criações musicais, usando instrumentos convencionais ou alternativos, voz, percussão corporal e movimento. Reciprocamente, podemos partir de notações simples e criar e mundos sonoros extraordinários.
Que tal fazer música a partir desses incríveis estímulos?
Para o pintor Wassily Kandinsky, a linha é um ponto em movimento.
“Nunca, antes de Klee, havia-se deixado uma linha sonhar” (Bergson, em O olho e o espírito”, de Merleau-Ponty, 1961).
Deleite-se!
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