Blog

Carta para Almeida Prado

Mestre, você agora é um morador celeste. Obrigada por nos deixar a sua música, tão cheia de energia, de cores e de delicadeza. Aqueles arpejos e ritmos de dar nó fazem o improvável parecer indispensável.

Obrigada pelas peças da sua Cartilha rítmica que, interpretadas por Sarah Cohen, emprestam-se à apreciação musical pelas crianças no meu livro Para fazer música 1. Deixe-me homenageá-lo contando como isso acontece.

São três peças marcantes, cheias de personalidade e de vitalidade. A primeira chama-se Dois tempos simultâneos com quiálteras a 3 vozes: Maria ao mundo oferece quem vem salvá-lo: Jesus. Ela é bem doce e intimista. A estrutura irregular das frases é arredondada pelas quiálteras de três semínimas sobre duas semínimas e pelo movimento de quiálteras de cinco colcheias na mão esquerda sempre que a direita repousa. Depois de muitas notas docemente alteradas, a peça termina com um acorde perfeito maior. Clique para ouvir: http://dl.dropbox.com/u/15280243/Maria.wma.

A segunda peça é Pulsação fixa de 3 colcheias com articulações de 3 semicolcheias, que dura apenas 12 segundos. É bem rápida e mantém um ostinato na mão esquerda articulado de três em três notas, sobre o qual se desenrola uma melodia em grupos de três notas ascendentes em sequência, até que a direção é invertida e os grupos de três notas descem quase até o ponto inicial. Um único gesto, que dispara e retorna. Clique para ouvir: http://dl.dropbox.com/u/15280243/Pulsa%C3%A7%C3%A3o.wma.

A terceira, Maracatus do Recife II: Esquema rítmico do maracatu, tem motivos repetidos que utilizam o ritmo característico desse gênero – a síncope entre grupos de duas colcheias – sobre padrões de quatro semicolcheias e de quiálteras, que vão acelerando até um corte abrupto. Clique para ouvir:
http://dl.dropbox.com/u/15280243/Maracatu.wma.

Mesmo que as crianças não compreendam as questões composicionais técnicas das peças, elas percebem a singularidade rítmica e expressiva de cada uma, podendo manifestar sua compreensão por meio da corporeidade, da regência intuitiva e da grafia analógica, produzindo mini-audiopartituras para representá-las. A princípio, esses registros tendem a ser “pessoais e intransferíveis”. À medida que a percepção e a grafia se refinam, a notação pode ser melhor definida para registrar a ideia musical de forma cada vez mais aprimorada.

Antes da escuta e eventual grafia das peças, é interessante que as crianças façam o caminho contrário: analisar e transformar em música mini-audio partituras gráficas como estas (você pode imprimir a imagem no link lá embaixo).
Almeida
Para realizá-las, é preciso observar todos os detalhes. Durações, caráter e estrutura são sugeridos pelo traço, pela forma e, digamos, pelo assunto.

A primeira é formada por três cartões em forma ABA. O primeiro e o último apresentam linhas contínuas sinuosas, ascendentes e descendentes, com alguns “respingos” de sons curtos. A parte central sugere a morosidade de uma lesma carregando sua casa nas costas: um som contínuo, piano, lento, muito lento, enrolando-se. Algum elemento na sonorização precisa sugerir esse movimento de dentro para fora (ou de fora para dentro).

Na segunda, o que mais chama a atenção é o tema: choro. Seguir o traço dos desenhos é simples: dois sons em curva, separados por um expressivo silêncio, gotas caindo e se acumulando numa poça sonora. Mas choros podem ser de tristeza, de alegria, de emoção, de saudade, de arrependimento… Como traduzir sonoramente padrões psicodinâmicos tão subjetivos?

A terceira é composta de quatro diferentes eventos, guardando entre si a semelhança do material, sons curtos e longos organizados em diferentes desenhos melódicos e estruturais. O último guarda unidade com os anteriores apenas pela presença do curto e longo, mas sugere uma caracterização expressiva diferente, engraçada ou irritante, talvez.

A quarta é um grupo de espirais sonoras, rápidas, justas, girando sobre si mesmas como um pião. A quinta tem um conteúdo pictórico mais filosófico: o ser pensante refletindo, questionando, exclamando… A última tem a forma bem nítida com dois eventos alternados até a coda surpreendente, formando um ABABAC. Seguir o traço? Seguir o tema?

A realização é livre. Todas as soluções criativas são legítimas, mas deve-se cuidar para que sejam também legitimamente musicais, que guardem coerência tanto quanto originalidade, que tenham um impacto sonoro que prenda a atenção, que expressem argumentos com convicção. Essas mini-audiopartituras apresentam diferentes arranjos estruturais; o fluxo ora é mais discursivo, ora mais articulado; os eventos são ora repetidos, ora transformados. Sobre esses esboços, as melodias podem ser delicadas, animadas, engraçadas, dramáticas… Os ritmos podem ser tranquilos, apressados, irregulares, saltitantes… O caráter expressivo pode ser giocoso, melancólico, engraçado, dramático, solene, militar, dolce… Um apetitoso menu degustação dentro de um universo musical de fácil manejo.

Caro José Antônio de Almeida Prado, morador celeste, inspire-nos sempre!

Obrigada, obrigada, obrigada.

Este post está em: 2010Carta para Almeida Prado Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Deixe uma resposta